
Participantes da reunião | Foto: Edu Guimarães / ACSP
Para o coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional (DSI) da Universidade de São Paulo (USP), Alberto Pfeifer, a China deixou de olhar para o agronegócio brasileiro apenas como fonte de eficiência e passou a tratá-lo como ativo estratégico de segurança alimentar. Essa mudança de chave, segundo ele, deve orientar a forma como o Brasil se posiciona entre as duas maiores potências do mundo nas próximas décadas.
Foi nesse tema que Pfeifer se debruçou na palestra promovida pelo Conselho Jurídico (CONJUR) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), sob coordenação de Fábio Prieto de Souza, nesta segunda-feira (28).
Não é uma nova Guerra Fria
A relação entre Estados Unidos e China, para o especialista, não deve ser descrita como uma nova Guerra Fria. Ao contrário do confronto soviético-americano do século passado, as duas potências de hoje são interdependentes: negociam, investem, trocam tecnologia e estudantes em grande escala. "A China não trapaceou, ela jogou a régua do jogo. Hoje a China é o padrão de aspiração e consumo dos produtos de alta tecnologia. O Brasil é o maior importador de carro elétrico da China no mundo", disse.
Da eficiência à segurança: o agro como ativo estratégico

Fábio Prieto de Souza, Alberto Pfeifer e Alfredo Cotait Neto | Foto: Edu Guimarães / ACSP
A China mudou a forma como compra do agronegócio brasileiro, segundo Pfeifer: já não se trata apenas de obter o produto mais barato, e sim de garantir o abastecimento. "Hoje a China olha para o agro como um elemento estratégico, não como eficiência. É como se ela dissesse: eu quero segurança, eu quero produzir aquilo, mesmo que saia mais caro", afirmou.
Esse movimento é apenas um exemplo, para o pesquisador, de um ativo maior do país: a capacidade de produzir agricultura tropical em escala, algo que poucos lugares do mundo sabem fazer bem. "Nós somos dotados da capacidade tecnológica de produção tropical. Só nós sabemos fazer agricultura tropical em larga escala e de qualidade. Agricultura tropical é alimento, é bioenergia, é fibra, é composto biológico que vai fazer parte da bioindústria e da biotecnologia", disse Pfeifer.
Quatro tendências até 2050
O restante da palestra foi estruturado em torno de quatro tendências que, para Pfeifer, vão moldar o mundo até 2050: o envelhecimento da população nos países ricos e o crescimento demográfico concentrado na África e no Sul da Ásia; o avanço da inteligência artificial e, mais à frente, da computação quântica; o aumento da frequência e da intensidade de desastres climáticos; e a perda de eficácia das regras internacionais que organizavam o comércio e a política globais desde o fim da Guerra Fria.
Segundo o especialista, o Brasil tem vantagens competitivas em pelo menos três dessas frentes: a demanda por alimentos deve crescer justamente nas regiões que mais crescem em população, caso da África; o país reúne ativos hídricos e ambientais relevantes diante da crise climática; e, mesmo fora da vanguarda tecnológica, tem espaço para atuar em setores acessórios da corrida por inteligência artificial e computação quântica.
Ao resumir a posição brasileira nesse cenário, Pfeifer classificou o país como um potencial "supridor alternativo de bens estratégicos" para o mundo, citando a disponibilidade de recursos naturais e a baixa exposição a conflitos militares diretos como vantagens ainda pouco exploradas.
Sobre a ACSP
Fundada em 1894, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) é a maior associação empresarial do Brasil, com 132 anos de história e mais de 15 mil associados. Sob a presidência de Alfredo Cotait Neto, maior liderança do associativismo empresarial brasileiro, a entidade é a principal voz do empreendedor nacional na defesa da livre iniciativa.
A ACSP tem protagonismo direto na construção do marco legal do empreendedorismo no país: foram criados ou impulsionados pela ACSP o Estatuto da Micro e Pequena Empresa, o Simples Nacional, o Microempreendedor Individual (MEI), a Lei da Liberdade Econômica, o Impostômetro e, em parceria com a CACB, o Gasto Brasil.
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Por ACSP - 29/09/2026