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Dois fatos, intimamente relacionados, chamaram a atenção na semana passada: a depreciação do Real frente ao dólar e a manutenção da taxa de juros básica (SELIC) por parte do Banco Central.

No primeiro caso, pode-se afirmar que a moeda brasileira seguiu o movimento observado nos demais países emergentes, frente ao cenário provável de um maior número de aumentos na taxa de juros norte-americana. Esse cenário se explica pela maior expectativa de inflação nos Estados Unidos, decorrente da redução de impostos, do aumento de gastos públicos, da saída unilateral deste país do acordo com o Irã, o que tende a elevar o preço do petróleo, além da aceleração das vendas do varejo.

A mera expectativa de maiores juros internacionais tende a afugentar capitais financeiros das operações de curto prazo em mercados como o brasileiro, o que tende a
reduzir a entrada de dólares, elevando seu preço, representado pela taxa de câmbio.

Contudo, tratando-se do Real, essa é só parte da história, pois a elevação da cotação da moeda estrangeira também obedeceu ao maior risco país percebido pelos investidores estrangeiros. O endividamento público crescente, sem que se visualize solução na forma de uma reforma previdenciária, foi o principal fator pelo lado econômico, enquanto a grande incerteza política e a falta de compromisso dos principais candidatos à eleição presidencial com essa reforma também ajudaram a elevar a percepção de risco.

O Banco Central reagiu à depreciação do Real mantendo a taxa SELIC em 6,5% ao ano, surpreendendo à maioria dos analistas de mercado, que apostavam em uma última redução de 0,25%. Na avaliação do Comitê de Política Monetária (COPOM) o Real mais depreciado geraria pressões de custos, que elevariam a inflação, e, por isso, seria prudente manter o custo do dinheiro no atual nível.

Ainda que a política de juros aponte para o cenário de inflação do próximo ano, pois as mudanças na taxa básica demoram vários meses em afetar a economia, a reação da autoridade monetária gerou “ruído” desnecessário. Além disso, a lenta recuperação da atividade e o elevado nível de ociosidade contribuirão para arrefecer o aumento dos preços em 2018, o que, a partir da correção monetária, tende a transmitir-se para a inflação do próximo ano.

Vale lembrar que o regime cambial adotado é do tipo flutuante, o que implica que a intervenção da autoridade monetária no mercado de moeda estrangeira deverá ser pontual e não sistemática, unicamente para reduzir volatilidades excessivas. Nesse sentido, não se pode deixar de mencionar que a perda de valor da moeda brasileira ocorrida nos últimos meses aumentou a competitividade de vários setores ligados à indústria, o que favorece a retomada do crescimento econômico.

Vivemos tempos de turbulências externas e internas, que tenderão a provocar novas flutuações da taxa de câmbio. Seria importante que o Banco Central minimize o grau de discricionariedade da política monetária, evitando, assim, aumentar o já elevado nível de incerteza do cenário político-econômico.

 


Análise da Conjuntura


1. Moeda, Crédito e Inflação

Segundo o Banco Central, em março, o crédito à pessoa física continuou mostrando lenta recuperação, com alta, em 12 meses, de 6,5%, pouco acima da inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA, registrada para o mesmo período (2,7%). A taxa de juros média anual aplicada à pessoa física, apesar de seguir muito elevada (33%), é menor do que a registrada em março de 2017 (41,4%).

Em março, a taxa de inadimplência da pessoa física, medida pelo Banco Central, alcançou a 3,6% da carteira, ante 3,7% observado em fevereiro, e 4,0% registrado no
mesmo mês de 2017. É o menor nível de inadimplência da série histórica, o que seria suficiente para reduzir as taxas de juros cobradas pelos bancos.

Em sua última reunião, o COPOM surpreendeu o mercado, mantendo a taxa básica (SELIC) em 6,5% ao ano. Apesar de reconhecer que a atividade econômica perdeu “fôlego” no primeiro trimestre, destacou que a alta dos juros nos Estados Unidos tornou o cenário externo mais desafiador e mais volátil.

Em abril, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA acelerou para 0,22%, ante 0,09% no mês anterior, fazendo a inflação em termos anuais  (12 meses) subir levemente para 2,76%, porém mantendo-se ainda abaixo do limite inferior da meta anual (3,0%).

2. Atividade Econômica e Emprego

De acordo com o IBGE, em março, a indústria registrou alta de 1,3%, ante o mesmo mês de 2017, frustrando novamente as expectativas, apesar do mês contar com dois dias úteis a menos. Houve crescimento da produção dos bens duráveis e de capital, enquanto os bens intermediários e semiduráveis apresentaram queda. O resultado em 12 meses se estabilizou, com alta de 2,9%.

Em igual mês, segundo o IBGE, continuou havendo aumento tanto do varejo restrito (que não inclui veículos e material de construção), como do ampliado (que inclui todos os segmentos), em relação a março de 2017 (6,5% e 7,8%, respectivamente. As maiores influências positivas vieram dos ramos de supermercados e veículos, enquanto houve contração das vendas de móveis e eletrodomésticos e informática. Em 12 meses, as vendas dos dois tipos de varejo continuaram acelerando, com altas de 3,7% e 6,2%, respectivamente.

O setor serviços, ainda de acordo com o IBGE, em março, reduziu a intensidade da queda para 0,8%, em relação ao mesmo mês do ano passado, e também no resultado acumulado em 12 meses (-2,0%). Os serviços profissionais e administrativos exerceram a maior influência negativa, seguidos por serviços de informação e comunicação e transporte.

Dados da ACSP/BVS referentes às consultas efetuadas no primeiro quadrimestre de 2018, registraram altas de 7,8% nas compras parceladas e de 1,3% nas realizadas à vista.

A confiança do consumidor, medida pelo Índice Nacional de Confiança (INC), calculado pelo IPSOS para a ACSP, registrou aumento de 5,9% em maio, em relação ao
mesmo mês de 2017. O consumidor continua cauteloso, mesmo com a queda do número de pessoas conhecidas sem emprego de 5,6% para 5,0%, em relação ao ano passado.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada pelo IBGE, a taxa de desemprego, em março, chegou a 13,1% da força de
trabalho, ante 13,7% observada no mesmo mês do ano passado. A massa de rendimentos, que representa a renda auferida no mercado de trabalho, desacelerou, crescendo 1,8%, em base anual (1,8% na ocupação e 0% nos salários). Os salários pararam de subir em termos reais, se ajustando a uma inflação baixa e estável.

Finalmente, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que se aproxima à prévia do Produto Interno Bruto (PIB), em março, recuou frente ao mês anterior, livre de efeitos sazonais. Ante o mesmo mês de 2017, caiu 0,7%, enquanto no primeiro trimestre e no acumulado em 12 meses cresceu apenas 0,9% e 1,0%, respectivamente.

Em síntese, os dados do primeiro trimestre sugerem que a recuperação arrefeceu, levando à redução das expectativas de crescimento econômico para o presente ano. A inflação continua baixa, porém com tendência de alta para 2018 e 2019, embora sem ultrapassar a meta anual, mantendo-se o atual patamar da taxa de câmbio.

3. Finanças Públicas

Em março, de acordo com o Banco Central, as contas do Setor Público Consolidado (União, Estados, Municípios e empresas estatais) apresentaram despesas não financeiras maiores que as receitas (déficit primário) de R$ 25,1 bilhões, configurando o pior resultado para o mês, desde 2001, que corresponde ao começo da série histórica. No resultado acumulado nos últimos 12 meses, o déficit primário subiu de R$ 100, 4 bilhões (1,5% do PIB), registrado em fevereiro, para R$ 108,4 bilhões (1,7% do PIB).

O resultado mensal foi explicado fundamentalmente pelo saldo negativo do Governo Central (Tesouro Nacional, INSS e Banco Central), que alcançou a R$ 25, 5 bilhões,
explicado em grande medida pelo aumento dos gastos discricionários, após vários meses em baixa, e pela antecipação do pagamento de precatórios, no valor de R$ 10 bilhões, que no ano passado ocorreu em maio. Os governos estaduais e municipais e as empresas estatais, por sua vez, apresentaram receitas superiores às despesas não financeiras (superávit primário) de R$ 552 milhões e 156 milhões, respectivamente.

Apesar da piora dos resultados fiscais em relação a fevereiro, no primeiro trimestre do ano o Governo Federal, segundo o Tesouro Nacional, apresentou superávit primário de R$ 4,4 bilhões, o dobro do alcançado no mesmo período de 2017, com receitas líquidas totais crescendo em termos reais (corrigidos pela inflação – IPCA) 7,4%, acima da expansão dos dispêndios não financeiros, que alcançou a 4,6%. Parte desse resultado positivo se deve a algum esforço de contenção de gastos, apesar da contínua expansão das despesas previdenciárias, mas, pesa bastante o aumento da arrecadação, decorrente da recuperação da atividade econômica.

Com relação ao pagamento dos juros da dívida pública, continuou havendo redução no acumulado de 12 meses, frente à leitura do mês anterior, explicada pela redução da taxa de juros básica (SELIC). Essas despesas financeiras alcançaram a R$ 379,5 bilhões em março, o que corresponde a 5,7% do PIB.

Somando-se essas despesas anteriores com o resultado primário do Governo Consolidado, obtém-se o resultado nominal, que foi negativo (déficit nominal) no mês, no
trimestre e no acumulado de 12 meses, correspondendo neste último caso a R$ 487,9 bilhões (7,4% do PIB). Esses resultados negativos continuam obrigando o Governo a elevar seu endividamento, que alcançou novo patamar sem precedentes, chegando a 75,3% do PIB em março, considerado demasiado alto para garantir a solvência de longo prazo das contas públicas.

Apesar da piora dos resultados fiscais registrada em março, os analistas de mercado estimam que continua sendo bastante provável o cumprimento da meta fiscal para 2018, que corresponde a um déficit primário de R$ 161,3 bilhões para o Governo Consolidado. Contudo, a redução do grau de endividamento fiscal para patamares sustentáveis passa necessariamente pela geração futura de superávits primários, que somente será possível com a realização da reforma da Previdência.

4. Setor Externo

A balança comercial registrou superávit de US$ 6,1 bilhões em abril, com exportações de US$ 19,9 bilhões e importações de US$ 13,8 bilhões. Foi o segundo melhor
saldo comercial para o mês de abril, pouco inferior ao registrado no mesmo período do ano passado (US$ 6,9 bilhões). As vendas externas, no entanto, acusaram um decréscimo de 3,4%, e as importações aumentaram 10,3%, calculadas pela média diária.

A explicação para o recuo das exportações, segundo o Ministério de Comércio Exterior e Serviços (MDIC) se deve principalmente ao menor número de dias úteis em abril deste ano. Foram três dias a menos em relação a abril de 2017, que, na comparação, diminui a média diária.

No entanto, no acumulado janeiro-abril, as vendas para o exterior somaram US$ 74,3 bilhões, uma expansão de 7,7%, em comparação com o mesmo período do ano
passado. Cresceram as exportações dos três grupos de produtos: básicos (2,6%), manufaturados (15,9%) e semimanufaturados (4,2%). Entre os mercados compradores, destacaram-se as vendas para a China (US$ 18,4 bilhões), EUA (US$ 8,6 bilhões), Argentina (US$ 6,0 bilhões), Países baixos (US$ 4,6 bilhões) e Chile (US$ 2,0 bilhões).

No mesmo período, também as importações, no valor de US$ 54,2 bilhões, tiveram um aumento de 14,5%, relativamente ao primeiro quadrimestre de 2017. O destaque foi o crescimento de 23,2% nas aquisições externas de bens de capital, sugerindo aumento da confiança do empresário brasileiro na recuperação econômica do país.

Como resultado do primeiro quadrimestre do ano, a balança comercial registrou um superávit de US$ 20,1 bilhões, que, embora represente uma queda de 6% relativamente a igual período do ano passado, esse robusto saldo positivo continua mantendo moderado o
déficit das contas externas.

A conta “Transações correntes” do balanço de pagamentos, que envolve todas as transações comerciais, de serviços e rendas do país com o resto do mundo, registrou um déficit acumulado nos últimos doze meses, terminados em março, de US$ 8,4 bilhões, representando apenas 0,4% do PIB. Há um ano, esse saldo negativo era de US$ 20,6 bilhões correspondendo a 1,1% do PIB.

Na área financeira, no entanto, o mercado de câmbio atravessa um período de forte turbulência, com grande volatilidade nas cotações das moedas estrangeiras, correndo-se o risco de prejudicar as transações externas do país. A cotação do dólar, que já vinha apresentando tendência ascendente desde o mês passado, continuou apresentando forte instabilidade durante o transcorrer de abril, fechando o mês valendo R$ 3,50, com alta de 6,3 % no mês, e de 10,0% nos últimos doze meses, em relação ao Real.

Esse movimento de valorização da moeda americana também tem pressionado globalmente outras moedas pela perspectiva de uma elevação mais acentuada dos juros
nos EUA, e começo de políticas protecionistas adotadas pelo governo americano. No cenário interno, a situação se agrava diante das incertezas eleitorais no Brasil.

Sintetizando, mesmo diante de um cenário externo e interno repletos de incertezas, agravadas no transcorrer de maio pela crise cambial na Argentina, levando-a a recorrer ao FMI, e a decisão do governo americano de romper o acordo nuclear com o Irã, prometendo retaliações comerciais, a economia brasileira atravessa um período de tranquilidade em função da boa evolução das contas externas. O confortável montante de reservas cambiais (US$ 382,2 bilhões), os robustos saldos comerciais, o moderado déficit nas contas externas e a atuação do Banco Central para conter a disparada do dólar, são motivos suficientes para afastar o país de qualquer crise cambial.

Por IEGV - Instituto de Economia Gastão Vidigal