Ampliação de mercados depende de estratégia de inserção global, destaca Marcos Troyjo em palestra promovida pela SP Chamber

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A necessidade de uma política de inserção global e a adoção de estratégia foram pontos citados como fundamentais para ampliar a participação do Brasil no comércio internacional, durante a palestra "Brasil 2027: Dois Rumos da Política Externa e do Comércio Exterior", conduzida por Marcos Troyjo, na sede da Associação Comercial de São Paulo, em 24/8. Na abertura do evento, o presidente da ACSP, Alfredo Cotait Neto, líder do associativismo no Brasil, enfatizou a importância do governo entender a demanda de novas políticas.

“Desde 2010, tenho dito que o Brasil deveria ter um ministério de comércio exterior para ditar a sua política. Esse é um caminho para o crescimento. Precisamos preparar pequenas e médias empresas para que possam atuar no mercado externo e também aproveitar o momento que se abre com acordo entre Mercosul e União Europeia”, ressaltou Cotait.

Foto: Equipe da SP Chamber / ACSP

O evento, organizado pela São Paulo Chamber of Commerce, braço de internacionalização da ACSP, e o CECIEx (Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras), apresentou como as mudanças na política externa, definidas pelo governo a partir de 2027, podem levar empresas brasileiras à revisão de mercados e projetos.

Para Marcos Troyjo, economista, cientista político, diplomata, um dos principais negociadores do acordo Mercosul-UE, ao tentar identificar o que há em comum entre as economias de maior sucesso, é possível verificar a existência de uma certa visão, projeto ou estratégia de inserção internacional.

“A inserção internacional é algo maior que política externa e que o comércio exterior. É como ter elementos de círculos concêntricos, com a diplomacia em determinado ciclo, a política externa em outro e sabendo que a inserção passa por todos eles”, explicou Troyjo.

A partir do mapeamento de países como Alemanha, Japão, Israel, Espanha e China, Troyjo apresentou um comparativo entre as políticas e direcionamentos dos governos e defendeu entre os participantes do evento como o comércio exterior foi a alavanca para o êxito no desenvolvimento econômico de cada um deles, ao contrário dos países que se mantiveram fechados em si mesmos.

 

O risco da simplificação geopolítica

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Falando sobre a aplicação da Análise SWOT, que permite chegar aos pontos fortes, fracos, oportunidades e ameaças para o comércio, Troyjo criticou o erro de uma visão de mundo a partir de uma lente ideológica que deixa em outro extremo o pragmatismo. E chamou atenção para posicionamentos equivocados sobre a divisão entre Norte Global e Sul Global (onde estão os herdeiros do Terceiro Mundo ou países em desenvolvimento). 

“[O mundo] fica travado em uma lógica pela qual se a fatia da pizza for maior para um país a do outro será menor, e se alguém ganha é porque outro perde”, enfatizou Troyjo.

De acordo com o diplomata, a ideia de construir uma agenda comum a partir do chamado Sul Global apresenta limitações. Também considera que é preciso ter um olhar para o crescimento dos países emergentes, em especial o E7, grupo formado pelas sete principais economias emergentes, que está redesenhando o mapa mundial de consumo e ampliando a demanda por alimentos e insumos, o que possibilita novos negócios para o Brasil.

 

Falta de estratégia distância Brasil das oportunidades

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Para análise apresentada na palestra, o especialista escolheu o período comparativo pré-eleitoral de 2003, em que a China era recém admitida como membro OMC, a globalização ocupava espaço, o cenário era favorável para expansão das cadeias globais de valor, o ESG surgia nos debates e o Brasil ganhava força nos processos de integração econômica regional. Mesmo diante de todas as oportunidades, ao medir o período de recorte escolhido, os resultados se mostraram nada expressivos e não houve salto significativo da participação no comércio global. E o quadro não evoluiu como deveria nas décadas seguintes.

“Nosso PIB hoje é menor que em 2003. A fatia de comércio internacional também não aumentou. Na fase de globalização profunda poderíamos ter aproveitado as janelas abertas e isso não foi feito. Além disso, as duas maiores economias do ocidente, Estados Unidos e Brasil, encontram-se apartadas neste momento e não me lembro de um momento em que os dois países estivessem mais distantes”, refletiu o diplomata.

Ao falar sobre as características de algumas economias, o palestrante defendeu que o crescimento da China, a partir de 1978, esteve diretamente associado à abertura econômica e ao fato de o país asiático buscar maior autonomia com a ampliação da dependência de outros mercados em relação à sua economia. Na sua análise, a China tende a reduzir a dependência de fornecedores de alimentos como Estados Unidos, União Europeia, Austrália e Nova Zelândia, o que pode ampliar as compras do Brasil, diante da forte demanda chinesa por alimentos. Segundo ele, os chineses também veem o Brasil como um parceiro com menor propensão a transformar o comércio internacional em instrumento de pressão.

Analisando a relação com os Estados Unidos, Troyjo disse que ela tem se mostrado pouco produtiva, embora ainda seja fundamental para a inserção internacional brasileira. Para ele, o Brasil precisa buscar uma relação mais pragmática com os americanos, especialmente diante da relevância do país nas organizações internacionais. E lembrou que a possível entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) seria um movimento capaz de ampliar sua participação em estruturas globais e no acesso a recursos e oportunidades.

 

Relevância das pequenas e médias empresas para geração de negócios

Troyjo destacou que tanto no caso do Brasil quanto de outras economias, empresas de pequeno e médio porte são responsáveis por grande parte da atividade econômica e a maior parcela de geração de emprego.

Citando a Itália, destacou que, ao verificar o êxito de alguns países no comércio exterior, não é apenas um grande conglomerado industrial multinacional que conquista mercados externos, mas muitas vezes empresas com poucos funcionários têm sucesso nos objetivos de exportação. O economista atribui os resultados positivos à combinação de cultura exportadora, existência de acordos de comércio internacional, infraestrutura para exportação e, em uma parcela maior de contribuição, à questão da estratégia.

“A Associação Comercial tem um ecossistema em empresas de pequeno e médio porte que atinge o coração da economia brasileira. Trabalhar a cultura exportadora, mostrar os caminhos a seguir, incentivar a formação de consórcios de exportadores, e também de consórcios de importadores por onde é possível abaixar o custo médio do insumo e melhorar condições de pagamento e financiamento, estão entre as atividades da entidade e é por isso que ela saiu tão na frente na discussão sobre o acordo Mercosul-União Europeia”, ressaltou Troyjo ao lembrar a colaboração da entidade para o êxito do acordo comercial.

A palestra também contou com a presença de Paulo Roberto Barreto Bornhausen, secretário de Articulação Internacional do Governo de Santa Catarina e Conselheiro do COPS (Conselho Político e Social) da ACSP, e Alessandra Andrade, presidente da SP Negócios, que ressaltaram a importância de aproveitar as oportunidades em diferentes áreas de negócios do comércio internacional.

“Estamos envolvidos com a inserção internacional da cidade de São Paulo a partir dos negócios entre Mercosul e União Europeia. Temos desafios gigantes, mas também muitas oportunidades e precisamos organizar esse ecossistema para nos tornar competitivos e atrativos”, afirmou Alessandra.

“Não existe país que entrega qualidade de vida sem ter um fluxo de comércio exterior robusto. Não é possível ser industrializado sem um comércio forte”, pontuou Bornhausen ao ressaltar os esforços que a ACSP têm empreendido para a evolução da área de internacionalização de empresas.

Por ACSP - 25/08/2026