
Roberto Mateus Ordine
O comércio é uma das atividades mais antigas da civilização humana. Antes das moedas, antes dos impérios, antes dos estados modernos, já havia o comerciante, aquele que conecta quem produz a quem precisa, que lê o mercado com os olhos e o bolso, que assume o risco de abrir as portas todos os dias sem a garantia de que terá clientes suficientes para cobrir as contas. Há milênios, ele é o agente invisível que mantém a economia funcionando.
E, no entanto, é exatamente esse profissional que o poder público insiste em tratar como um eterno pagador de contas, nunca como um parceiro de desenvolvimento. O Dia do Comerciante, celebrado em 16 de julho, não deve ser apenas uma data simbólica de parabéns e campanhas. Ele precisa ser um momento de cobrança, de reflexão e, sobretudo, de reconhecimento real.
Os dados são contundentes. Segundo o IBGE, o comércio varejista fechou 2025 com alta de 1,6% no volume de vendas, nono ano consecutivo de crescimento, mesmo diante de juros elevados e condições de crédito restritivas. Em 2025, o Comércio gerou um saldo positivo de 247 mil novos postos formais de trabalho, crescimento de 2,3% no setor, segundo o Novo Caged/MTE. O estoque total de vínculos celetistas no país atingiu 48,47 milhões, e o desemprego caiu para 5,1%, menor nível da série histórica iniciada em 2012. Só o estado de São Paulo criou 311 mil postos formais no ano, em todos os setores.
Mas não é o que vemos. O que o comerciante enfrenta cotidianamente é uma combinação perversa de carga tributária sufocante, burocracia antiquada, insegurança jurídica e, nos centros urbanos, o abandono do poder público que transforma calçadas em obstáculos e praças em lugares inseguros.
Respeitar o comerciante não é proferir discursos em datas comemorativas. É garantir que ele pague menos tributos sobre o que fatura, não mais. Afinal, o comércio é um dos setores que mais pagam impostos no Brasil. É também simplificar as obrigações acessórias que consomem horas do seu tempo produtivo. É assegurar que as calçadas na frente da sua loja estejam limpas, iluminadas e seguras. É zelar pelo ambiente urbano em que ele investiu e muitas vezes com a poupança de uma vida inteira.
A Associação Comercial de São Paulo, fundada em 1894 e maior associação comercial do hemisfério sul, tem lutado há mais de 130 anos por esse reconhecimento. O comerciante não apenas vende: ele ancora bairros. Sua loja aberta dá vida à rua, garante o movimento que atrai outros negócios, cria o ambiente que faz as pessoas quererem estar ali. Quando uma loja fecha, não fecha só um CNPJ, fecha um pedaço da cidade. É por isso que iniciativas de revitalização de regiões como o Centro Histórico de São Paulo precisam ter o comerciante no centro da estratégia, não como coadjuvante.
Neste 16 de julho, a mensagem é direta: o Brasil não cresce sem o seu comércio. E o comércio não prospera sem condições dignas para operar. Chegou a hora de as autoridades, municipais, estaduais e federais, tratarem o comerciante com a seriedade que ele merece. Não como um recurso a ser explorado pela via fiscal, mas como um parceiro estratégico de desenvolvimento econômico e social.
Por ACSP - 16/07/2026