São Paulo pode perder financiamento internacional por falta de propostas estruturados

Foto: integrantes do evento | Créditos: Kiko F. / DC

São Paulo tem escala financeira e institucional para disputar recursos internacionais destinados a projetos de transformação urbana, mas pode deixar oportunidades pelo caminho se não conseguir apresentar projetos estruturados para bancos, agências de cooperação e investidores.

O alerta foi feito pela pesquisadora da FGV Cidades e consultora de organismos como CEPAL, Banco Mundial e GIZ, Claudia Acosta, durante debate promovido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por meio do Conselho de Política Urbana e Meio Ambiente (CPMU).

Foto: Profª. Claudia Acosta | Créditos: Kiko F. / DC

“O problema fundamental de São Paulo não é falta de recurso, mas o uso do recurso”, resumiu Acosta, ao comparar a capacidade de captação da capital com a de outros municípios latino-americanos onde atua como consultora.

Na prática, projetos urbanos podem acessar crédito e financiamento por meio de instituições, cooperação técnica e, redes internacionais de cidades e capital privado. Mas o desafio começa antes da busca pelo dinheiro: é preciso transformar problemas e necessidades da cidade em projetos tecnicamente estruturados, com objetivos, indicadores e capacidade de execução.

Para o coordenador do CPMU, Alessandro Azzoni, esse é um debate estratégico diante dos impactos das mudanças climáticas sobre as cidades: “A ideia desse debate é justamente, com o conhecimento da professora, nos ajudar a ter uma visão de como enfrentar os desafios do desenvolvimento urbano, tendo em vista o grande problema das mudanças climáticas”, afirmou Azzoni.

Um projeto pode fazer a diferença

Foto: Ygor Lucas e Alessandro Azzoni | Créditos: Kiko F. / DC

O coordenador-adjunto do CPMU e subprefeito de Pinheiros, Ygor Lucas Gomes da Costa, apresentou um exemplo de como a falta de um projeto estruturado pode fazer uma oportunidade migrar para outra cidade.

A primeira usina de hidrogênio verde do país recebeu financiamento da agência alemã GIZ no sul de Minas Gerais. Segundo Ygor, São Paulo perdeu a disputa porque não conseguiu apresentar uma proposta capaz de captar os recursos: “É importante a gente preparar bons projetos e captar recursos, porque as agências internacionais realmente investem quando encontram um projeto bem estruturado”, afirmou.

A cidade já tem exemplos de captação

A discussão também mostrou que a capital não parte do zero. Acosta apresentou dois projetos em São Paulo que utilizaram mecanismos de cooperação internacional.

Durante a pandemia, um consórcio de instituições financiado pelo governo britânico e pelo Banco Mundial realizou um estudo técnico sobre o déficit de calçadas em condições adequadas na cidade. Segundo a especialista, o problema atinge hoje entre 85% e 90% das calçadas. O levantamento continua sendo utilizado como referência em discussões da Câmara Municipal sobre mobilidade.

Em Sapopemba, um projeto combinou recursos de uma rede internacional com assistência técnica financiada pelo BID para diagnosticar e propor a requalificação de espaços urbanos. O trabalho considerou fatores como ilhas de calor, mobilidade e vulnerabilidade social.

Os exemplos reforçam, na avaliação da especialista, que a questão não é apenas encontrar fontes de financiamento, mas preparar a cidade para disputar esses recursos e transformar o financiamento em projetos executáveis.

A falta de continuidade das políticas urbanas, que se modificam a cada gestão, contudo, foi apontada como um entrave que também deve ser superado: “São Paulo possui planos e legislação, mas enfrenta dificuldades para manter a execução e monitorar resultados ao longo de diferentes administrações”, concluiu Azzoni.

Por ACSP - 19/08/2026