O Aeroporto Campo de Marte passará a operar pelo sistema de voo por instrumentos (IFR) a partir de agosto de 2026, em uma mudança que já impõe novos gabaritos de proteção sobre um raio de 20 quilômetros ao redor do aeródromo, afetando bairros como Santana, Anhanguera, Pirituba, Brasilândia, Perus, Jaraguá, Casa Verde, Cachoeirinha, Vila Maria, Vila Guilherme, Lapa, Mooca, Vila Prudente, Aricanduva e Carrão. A informação foi dada pelo coronel aviador Luiz Eduardo de França Scovino, comandante do Centro Regional de Controle do Espaço Aéreo Sudeste (CRCEA-SE), durante debate promovido pelo Conselho de Política Urbana e Meio Ambiente (CPMU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) na manhã desta quarta-feira (13 de maio).
Um levantamento aéreo conduzido pela empresa contratada pela PAX Aeroportos, concessionária do aeroporto, mapeou 14.500 obstáculos no raio de 20 quilômetros exigido pela operação IFR, realizado em múltiplos voos ao longo de 2025. Mônica Zellini, especialista que coordenou o levantamento, explicou que os dados refletem edificações existentes na data de cada voo e não contemplam projetos ainda em processo de aprovação.
O coronel Scovino esclareceu que a maioria dos empreendimentos passará apenas por uma pré-análise de compatibilidade com os procedimentos de pouso e não sofrerá restrição. Quando houver interferência com as rotas de aproximação, será aberto processo formal de análise. O Plano Básico de Zona de Proteção IFR de Campo de Marte foi publicado em 29 de abril de 2026, por meio da Portaria ICA número 2173, e é a referência normativa para o setor da construção civil. Os gabaritos instrumentais já vinham sendo aplicados pelo DECEA desde dezembro de 2025.
A transição para o IFR começará em fase de testes: até quatro movimentos por hora, janela operacional de uma hora por dia a partir das 6h (9h UTC), com aeronaves de categoria Charlie, perfil já presente em Campo de Marte. Um período de avaliação de seis meses seguirá o início das operações. A determinação de que Campo de Marte passe a operar por instrumentos partiu da Secretaria de Aviação Civil (SAC) e foi repassada ao DECEA.
O coronel Scovino afirmou que os controladores já estão em treinamento intensivo no laboratório do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (ICEA), em São José dos Campos. O major aviador Leonardo Gomes de Faria, comandante do Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Campo de Marte, acrescentou que as obras realizadas pela PAX, incluindo reforma da pista, recuo da taxiway e ampliação das zonas de escape, foram condição indispensável para a homologação das novas operações. Sem essas adequações, a certificação IFR seria tecnicamente inviável.
O Campo de Marte, que iniciou suas operações em 1929 e é o quinto aeródromo em movimento operacional no país, ocupa uma área de 2,1 milhões de metros quadrados em localização estratégica na zona norte, junto aos principais eixos viários e metroviários da capital.
O coronel Scovino apontou Campo de Marte e o aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, como aeroportos com potencial para se tornarem centros de mobilidade aérea urbana (UAM), segmento em que veículos elétricos com decolagem e pouso verticais, os eVTOLs, operarão na faixa entre 400 e 2.500 pés de altitude, convivendo com helicópteros e aviões. O Brasil já produz eVTOLs: a empresa EVE, citada pelo coronel, é uma das protagonistas globais do setor.
A OACI ainda não dispõe de normas para esse mercado, o que coloca o Brasil na posição de pioneiro regulatório. Em três meses, mais de 27.400 voos de drone foram registrados somente na área de responsabilidade do CRCEA-SE. Diego Moreira, da São Paulo Negócios, citou no debate projeções de mercado de 1 trilhão de dólares para o segmento nos próximos 15 anos.
O coordenador do CPMU, Alessandro Azzoni, que presidiu o debate, ressaltou que as interseções entre segurança operacional e desenvolvimento imobiliário exigirão diálogo contínuo entre a Aeronáutica, a prefeitura e o setor privado. Scovino informou que o DECEA já realizou duas reuniões com a prefeitura e está à disposição para quantas mais forem necessárias.
Foto: Adnilson Junior/ACSP
Por ACSP - 13/05/2026