
A segunda reunião do ano do Comitê de Avaliação de Conjuntura Econômica do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV), realizada na última quinta-feira (30) de forma online, reuniu empresários e especialistas para um diagnóstico da economia brasileira. O encontro destacou um cenário de contrastes, onde o vigor do agronegócio e a expansão do e-commerce enfrentam a resistência de juros elevados, baixa produtividade industrial e incertezas climáticas. O comitê é coordenado pelo professor e economista Edy Kogut.
Agronegócio: Recordes com Margens Comprimidas
O setor, que se consolidou como o motor da economia com um crescimento de 12,5% em relação a 2024, vive hoje um cenário contraditório. Embora a Safra 2025/26 prometa o maior volume de grãos da história, os produtores enfrentam uma severa compressão de margens. O desequilíbrio entre os custos de produção e o custo dos juros tem freado investimentos.
Especialistas alertam que 2026 será um ano que "testa a sobrevivência econômica" no campo. Além da queda no preço de commodities e da alta de 10% no custo de fertilizantes, fatores geopolíticos, como o conflito no Oriente Médio, dificultam o escoamento para mercados estratégicos. No horizonte climático, a possível formação de um forte El Niño no segundo semestre exige gestão tecnológica para mitigar eventos extremos. A previsão é que o PIB setorial desacelere, ficando em torno de 0,5% de crescimento.
O "Novo E-consumidor" e os Desafios do Varejo
No varejo, dados da Opinião Box e Nuvem Shop revelam um consumidor cada vez mais exigente. O e-commerce deve movimentar R$ 160 bilhões em 2026, um crescimento de 10%. Para este comprador, a experiência digital precisa superar a física: frete grátis (39%) e preços baixos (40%) lideram os motivadores, seguidos pela conveniência de comprar a qualquer hora (28,1%).
Entretanto, gargalos logísticos ainda geram descontentamento. O frete caro (57%) e prazos de entrega longos (35%) são as principais queixas, levando 50% dos usuários a recorrerem ao portal Reclame Aqui. A falta de confiança em lojas desconhecidas e a ausência de parcelamento sem juros também aparecem como barreiras críticas para a expansão do setor.
Indústria e Eletroeletrônicos em Retração
O setor de eletroeletrônicos apresenta uma queda de 6%, superando a retração de 2% da indústria de transformação. O encarecimento de insumos como plástico, alumínio e aço, somado ao endividamento das famílias, derrubou a confiança do empresariado para baixo dos 50 pontos. Com juros na "estratosfera", a rotatividade de produtos caiu drasticamente, já que os consumidores optam por não trocar aparelhos antigos.
Produtividade
A análise do comitê aponta para uma "armadilha de baixa produtividade". Nos últimos 10 anos, o PIB cresceu em média apenas 1,4%, com o agro muitas vezes encobrindo a ineficiência industrial. A perspectiva para 2027 é negativa, com previsão de queda de 2% no setor industrial, agravada pela falta de segurança jurídica que afasta investidores internacionais.
Finanças, Energia e a Revolução da IA
O setor financeiro vive a transição para a Inteligência Artificial. A Cielo, por exemplo, movimentou R$ 816 bilhões em 7,8 bilhões de transações utilizando IA. Essa revolução tecnológica impulsiona a demanda por Data Centers, o que cria um novo desafio para o setor de energia. O Brasil precisa encontrar soluções econômicas para atender a esse consumo crescente em um período de escassez hídrica e necessidade de expansão da fonte solar.
No campo tributário, há o alerta de que a reforma em curso pode elevar os preços no setor de serviços, gerando riscos de aumento na sonegação.
Cenários
Varejo desacelera. Crescimento de 1,4% primeiro trimestre. Indice nacional de confiança do consumidor que vem caindo, o que pode provocar viés de baixa no varejo de modo geral e no PIB. O crescimento no primeiro trimestre foi de 1,8. Também é preciso levar em consideração que os juros continuam muito altos por muito tempo o que acaba deteriorando a confiança do empresário e do consumidor, o alto grau de endividamento das famílias que podem contribuir para a queda do PIB.
Para fechar o cenário, o comitê projeta uma eleição de 2026 extremamente apertada, onde pequenos grupos — mulheres, idosos e população de baixa renda — serão os fiadores da democracia.
Índice Prato Feito"
Durante o encontro, foi apresentado o inédito Índice Prato Feito, desenvolvido pela Faculdade de Comércio da ACSP (FAC.SP). O indicador servirá como referência para o custo de alimentação fora de casa. No primeiro trimestre de 2026, o preço médio da refeição consolidou-se em R$ 30,27, refletindo o impacto da inflação de alimentos e custos operacionais no setor de bares e restaurantes.
Por ACSP - 07/05/2026