Fórum na ACSP discute oportunidades do acordo Mercosul–UE

Na quarta-feira (4), a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por meio da São Paulo Chamber of Commerce, braço internacional da entidade, em parceria com a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) e a SP Negócios, realizou, no auditório da entidade, o “I Fórum de Integração Mercosul-EU: liderança, bastidores e o futuro do seu negócio”. O evento reuniu empresários, congressistas e embaixadores com a intenção de inaugurar o cronograma de trabalhos e convocar entidades de classe e instituições para a construção da pavimentação para o mercado europeu.

O propósito é executar uma agenda de trabalho contínua, com ações que preparem o empresariado brasileiro, em especial, o micro, pequeno e médio empreendedor, para acessar de maneira ideal o mercado do bloco econômico da União Europeia. Com o simpósio, a Associação Comercial de São Paulo pretende auxiliar na sustentação técnica e política para o País não perder essa importante janela de oportunidade, convidando à união de forças entre as entidades de classe e instituições.

Roberto Mateus Ordine, presidente da ACSP, abriu o fórum destacando que, apesar do atual cenário mundial por conta dos conflitos, o acordo Mercosul-EU será, sem dúvida, valioso, afirmando que “para nós, do setor empresarial, os empreendedores, é um momento gratificante porque vamos entrar em uma nova era com novas oportunidades de negócios”.

Em seguida, para proferir as palavras de boas-vindas, Alfredo Cotait Neto, presidente eleito da ACSP, assumindo a presidência da entidade a partir de 31 de março, e presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da CACB, disse que o anúncio do início da operacionalização do acordo entre Mercosul e União Europeia é “uma excelente notícia em meio a um cenário de muitas notícias negativas”.

Cotait Neto lembrou que o tratado de livre comércio entre os blocos é o resultado de uma discussão de longa data, com diplomatas e figuras políticas trabalhando pela sua concretização e compreensão de sua importância. Enfatizou também a assinatura de um convênio para conectar pequenas empresas e promover diálogo e oportunidades de transações no mercado europeu. “Assinamos um acordo, a Associação Comercial de São Paulo e a Associação Industrial Portuguesa (AIP), para colocar as pequenas empresas em contato, para que elas possam começar a conversar e a fazer negócios”.

Além disso, observou que o acordo comercial transforma o ambiente de negócios entre Brasil e Europa, abrangendo mais de 700 milhões de consumidores e, por isso, é fundamental que as empresas brasileiras compreendam a dimensão e as oportunidades que surgirão. “Neste ano de 2026, 54% dos produtos já vão ficar com a sua tarifa zerada imediatamente. Entre eles, químicos, medicamentos e TI”.

Encerrando a sua fala, Cotait Neto salientou ser crucial que as pequenas empresas invistam em capacitação, inovação e adequação às políticas europeias para conseguir exportar ou participar de cadeias globais de valor.

Paulo Bornhausen, secretário de Estado da Articulação Internacional de Santa Catarina, abordando as oportunidades e ações desenvolvidas, falou da relevância do acordo com o bloco europeu, que supera o âmbito comercial, aprofundando os laços políticos, sociais e econômicos. Realçou os esforços da ACSP para a implementação do acordo, formando um grupo com lideranças, entre elas, Marcos Troyjo e Miguel Relvas, para impulsionar o processo. “A Associação Comercial de São Paulo, sob a liderança dos seus dirigentes, vai liderar o setor privado no Brasil nas próximas tratativas e na preparação. E aqui, em especial, com foco nas pequenas e médias empresas, que são um elo importantíssimo para que esse acordo possa, nos próximos dez anos, prosperar”.

Bornhausen expressou ser crucial quebrar o padrão passado do Brasil de ser bom em fazer acordos, mas ruim em executá-los, e recordou que o Geopolítico, como as ações de Trump, aprofundaram a necessidade da União Europeia de fortalecer laços com parceiros preferenciais, posicionando o Brasil como "a fronteira do Ocidente para a Europa".

Para falar sobre os desafios políticos e as oportunidades econômicas, Pedro Miguel da Costa e Silva, embaixador do Brasil junto à União Europeia (EU), iniciou a sua apresentação relembrando que o Parlamento Europeu, por uma margem de 10 votos, remeteu o acordo à Corte de Justiça Europeia para verificar sua legalidade em relação aos tratados europeus, vista como uma “manobra dos opositores para ganhar tempo e postergar a entrada em vigor do acordo”.

Expôs que o acordo, no entanto, prevê vigência provisória. Uma vez que os países do Mercosul, bastando apenas um, e a Comissão Europeia notifiquem a conclusão de seus procedimentos internos, o acordo entrará em vigor. Contudo, isso ocorrerá após dois meses da troca de notificações, possivelmente em maio para Brasil, Argentina e Uruguai. Já o Paraguai pode se juntar em março ou um mês depois.

Costa e Silva mencionou que a análise da Corte de Justiça pode levar entre um ano e meio e dois anos, acreditando que a chance de a Corte votar contra a legalidade do acordo é mínima, uma vez que as questões já foram discutidas e pacificadas. Além disso, entre os principais opositores, está o setor agrícola da Europa, que alega invasão de produtos brasileiros de qualidade inferior, sendo esse argumento o motivo da divisão no Parlamento Europeu.

“Há muito tempo que o setor agrícola europeu se opõe a um temor à competição do Mercosul e desenvolveu-se toda uma narrativa fantasiosa, fictícia, a respeito do acordo, do seu impacto, e da nossa produção agrícola”, pontuou. “Os produtos sensíveis, como carnes, etanol, açúcar, carne de frango, esses produtos, eles foram objetos de restrições quantitativas, e o Brasil, e os demais países do Mercosul, já exportam para a Europa. Então, esse temor é infundado”.

Sobre a narrativa de que os produtos brasileiros são de qualidade inferior, o embaixador afirmou que o Brasil, como principal fornecedor de produtos agropecuários para a Europa, já cumpre a legislação europeia e o acordo não altera essas regras, mas aumenta os canais de diálogo e cooperação. O desafio para o acordo é desmistificar a narrativa de que ele contribuirá para o desmatamento e será prejudicial às populações indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia, discurso amplificado por setores ambientais europeus que tendem a se opor a tratados comerciais.

Entre as razões que levaram ao entendimento do acordo Mercosul-EU, Costa e Silva destacou a importância geopolítica e geoestratégica à União Europeia, sendo este o grande acordo que faltava em sua rede de acordos comerciais, tratado a "joia da coroa" e o maior acordo com o Mercosul, posicionando a União Europeia como o primeiro parceiro significativo. Outras questões apontadas são a necessidade de competir de forma mais equitativa com outras grandes potências e benefícios em áreas como indústria, propriedade intelectual, serviços e compras governamentais.

Para o setor privado, especialmente pequenas e médias empresas, o acordo significa simplificação e facilitação de negócios, gerando oportunidades para europeus e brasileiros.

Os senadores Tereza Cristina (PP/MS) e Nelson Trad (PSD/MS) analisaram a relevância do tratado de livre comércio entre europeus e sul-americanos. Para a senadora, o acordo, mesmo provisório, vai além das tarifas, impactando praticamente todas as dimensões da vida econômica, regulatória e social do bloco, permitindo que os efeitos comecem a gerar resultados concretos imediatamente.

Embora haja preocupações iniciais em setores como lácteos e vinhos, a senadora vê um futuro de oportunidades, preparando políticas públicas de apoio para que esses setores possam competir, agregando valor e buscando nichos específicos no mercado europeu. Outro destaque é que o acordo fortalecerá a presença internacional de produtos brasileiros com origem diferenciada, tais como cachaça, vinhos, café e chocolate, além de promover a modernização industrial e reduzir custos de insumos e bens de capital europeus. Também será permitida a participação de empresas brasileiras em licitações de obras e serviços na Europa, o que exigirá preparação jurídica e técnica para os leilões.

O senador Nelson Trad revelou que houve um trabalho intenso para vencer resistências, especialmente de alguns países europeus. Para ele, o tratado é muito positivo para os setores da indústria e do agronegócio, compartilhando que existe a estimativa de um incremento anual de quase US$ 5 bilhões no setor da agricultura, e a oportunidade de reduzir a carga tributária e impostos sobre mais de quatro mil itens negociados no acordo.

Para discutir o cenário global e a força da coalizão, o painel contou com as participações de Marcos Troyjo, economista, cientista político e um dos principais interlocutores das negociações da finalização do Acordo Mercosul-União Europeia, e Miguel Relvas, ex-Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares de Portugal.

Em sua fala, Troyjo abordou o contexto histórico do acordo, resultado de 25 anos de negociações. Realçou que, se o estado de São Paulo fosse um membro da União Europeia, seria a 5ª maior população e a 6ª maior economia. A cidade de São Paulo, sozinha, seria a 12ª maior população e a 16ª maior economia, mostrando o potencial de liderança do estado como exemplo para a preparação do Brasil.

Falou que, embora o comércio internacional seja dominado por grandes corporações, as pequenas e médias empresas podem atuar como fornecedoras estratégicas para essas grandes empresas. Outro apontamento é que o acordo pode trazer investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação no Brasil, além de oportunidades em setores como defesa e inteligência artificial.

Já Miguel Relvas enfatizou a importância de uma união profunda entre o Brasil e a Europa, onde ambos os lados conheçam e respeitem seus espaços, e mencionou que a guerra na Ucrânia e as dificuldades existentes na Europa elevam a importância do acordo. Ele explicou que a Europa está envelhecida e precisava de um desafio, necessitando do Mercosul, especialmente do Brasil, para sua renovação.

Relvas também enxerga a área de defesa como fundamental e um grande potencial de investimento, onde o Brasil pode se beneficiar, dada a necessidade europeia de armamentos e a capacidade brasileira em recursos naturais.

No painel “Portugal: O Parceiro Estratégico”, José Eduardo de Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP), fez uma análise das relações comerciais e de investimento entre Portugal, Brasil, Mercosul e União Europeia, com foco nos desafios e oportunidades do acordo e o papel estratégico de Portugal e das associações empresariais.

Sobre o potencial econômico, a somatória do Produto Interno Bruto (PIB) do Mercosul e da União Europeia é cerca de US$ 22 trilhões, formando um bloco com poder significativo, com o Brasil representando 70% do PIB do Mercosul e 80% das exportações do bloco, além da estimativa de um crescimento de 32% nas exportações europeias. Carvalho disse que a Europa precisa de matérias-primas essenciais como lítio, cobalto, ferro, níquel, terras raras e biocombustíveis para a transição energética e tecnológica.

Foi apresentado que no Mercosul existem algumas barreiras não-tarifárias que dificultam a presença europeia, por exemplo, certificações complexas, longos requisitos técnicos e fragmentação regulatória interna. Sobre o papel de Portugal na relação com o Mercosul, o presidente da AIP elencou: porta de entrada no mercado europeu; hub logístico e industrial; plataforma de serviços; centro de transformação e simplificação de bens; e ponte diplomática e tecnológica.

Em relação à atuação da Associação Comercial de São Paulo e AIP, ele listou: capacitação em matérias regulatórias e técnicas; dinamizar a adesão das empresas e “modus operandi” do acordo; monitorizar processos de ratificação; acompanhar adaptações regulatórias; propor remoção das barreiras não alfandegárias; propor medidas aos governos para aprofundar as relações comerciais; assegurar parcerias viáveis; e fomentar a cooperação empresarial (ACEs / fusões), fator essencial nos processos de internacionalização.

Foi proposto também um protocolo para monitorar, em um prazo de cinco anos, o número de empresas envolvidas; a evolução do volume de importações e exportações; evolução dos Stocks IDE; número de operações de fusões e aquisições concretizadas; e evolução da FBCF.

Ao final do evento, foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica entre a ACSP e a SP Negócios com o objetivo de executar atividades conjuntas voltadas ao desenvolvimento econômico, à promoção da cultura empreendedora, ao apoio à internacionalização, à inovação, à tecnologia e ao fortalecimento do ambiente de negócios na cidade de São Paulo, com foco especial na análise e acompanhamento do acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia, visando especificamente ao intercâmbio de estudos, informações e conhecimento técnico sobre o impacto socioeconômico desta parceria na cidade de São Paulo.

O II Fórum de Integração Mercosul-EU: liderança, bastidores e o futuro do seu negócio será realizado no dia 14 de abril, na Associação Comercial de São Paulo.

Veja as fotos: flic.kr/s/aHBqjCM9Wy

Por ACSP - 05/03/2026