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Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo!

O ano que termina foi marcado pela continuidade da recuperação da economia brasileira, ainda que de forma muito mais lenta do que se esperava. O consumo das famílias deverá crescer acima do observado durante 2017, porém, não de forma significativa, dado o elevado desemprego e o aumento da informalidade, que limitam o crescimento dos salários, além das condições de crédito ainda “apertadas”. Toda essa situação também impediu uma retomada mais significativa dos serviços, que é o principal setor, do ponto de vista da produção, pois este é muito dependente do poder aquisitivo das famílias.

Por sua vez, o investimento produtivo também deverá aumentar em relação ao ano passado, beneficiado por uma base de comparação muito deprimida, e pela aquisição de máquinas e equipamentos por parte de algumas empresas, principalmente aquelas pertencentes ao agronegócio. Contudo, a grande incerteza eleitoral, só dissipada após o primeiro turno das eleições, a greve dos caminhoneiros, e o alto nível de endividamento das empresas, contribuíram para o adiamento ou cancelamento de grande número de iniciativas, gerando um resultado aquém das expectativas.

As contas públicas ainda fecharão o ano apresentando expressivo “rombo”, mas, não se pode deixar de reconhecer que o Governo Temer conseguiu reduzi-lo, em relação à situação desastrosa deixada por Dilma Rousseff, a partir da aprovação do “teto” para o aumento das despesas da União, além da maior arrecadação, impulsionado pela recuperação da atividade. Nesse contexto, o gasto público, tanto em termos de consumo, como também no tocante a investimentos em infraestrutura, deverá apresentar crescimento modesto.

Apesar do cenário internacional mais adverso, as exportações foram um dos destaques em 2018, mostrando notável elevação, impulsionando não somente a expansão da produção agropecuária, outro destaque, como da atividade industrial, que, apesar disso, deverá terminar o ano abaixo do inicialmente esperado, devido à fraca demanda interna e à baixa confiança dos empresários durante a maior parte do período.

As perspectivas para 2019 são, em princípio, bastante mais favoráveis, pois o próximo Governo “herdará” uma inflação sob controle, o que permitirá manter a taxa básica de juros em patamares baixos. Além disso, tanto a confiança do consumidor como a dos empresários passaram a apresentar significativos aumentos nos últimos meses. O setor externo, mesmo com os riscos de uma desaceleração da economia mundial, deverá continuar gerando entradas significativas de moeda estrangeira, tanto pela via das exportações, como pela entrada de capitais estrangeiros de longo prazo, afastando a possibilidade de crises cambiais. Nesse contexto, o crescimento econômico esperado para 2019 deverá ser mais “robusto”, propiciando maior geração de empregos e salários mais elevados.

Para que esse cenário mais auspicioso se concretize, será fundamental, no entanto, que o próximo Governo, no contexto de uma política econômica coerente, mantenha o compromisso com a realização das reformas estruturais, principalmente a Previdenciária, para que seja possível equacionar a grave situação fiscal em que o País se encontra, única forma de promover o crescimento sustentado de sua economia.

 

Análise da Conjuntura

1. Moeda, Crédito e Inflação

• Inflação, medida pelo IPCA, surpreendeu, apresentando variação negativa (deflação) entre outubro e novembro, ficando abaixo da meta, em termos anuais.

• Crédito à pessoa física continuou crescendo de forma moderada em outubro, ao se corrigir os valores pela taxa de inflação.

• Em sua última reunião do ano, o COPOM novamente manteve a taxa de juros básica (SELIC), dada a perspectiva de a inflação permanecer dentro da meta durante os próximos dois anos.

• Apesar disso, a taxa de juros média do crédito concedido à pessoa física segue caindo lentamente, enquanto a inadimplência permanece em seu mínimo histórico.

 

 


2. Atividade Econômica e Emprego

• Atividade industrial se expandiu abaixo do esperado, em outubro, na comparação com o mesmo mês do ano passado, refletindo, além da incerteza eleitoral, a menor demanda interna e a queda das exportações para a Argentina.

• Confiança do consumidor seguiu aumentando de forma intensa em dezembro, em relação ao mesmo mês de 2017, porém, mantendo-se, ainda, no campo pessimista.

• Taxa de desemprego continuou diminuindo lentamente em novembro, na comparação com o mesmo mês de 2017. A massa de rendimentos, que representa a renda total auferida no mercado de trabalho, continuou mostrando leve alta.

• Vendas do varejo em outubro também frustraram as expectativas, crescendo abaixo do esperado, em relação ao mesmo mês do ano passado, devido ao elevado desemprego, aos juros altos, à incerteza eleitoral, e, possivelmente, ao adiamento das compras, frente à expectativa de descontos da “Black Friday”.

• Serviços foi outro setor que registrou aumento do volume transacionado abaixo do esperado, na mesma base de comparação, sem conseguir mostrar retomada em termos anuais, em decorrência do desemprego e do fraco crescimento da renda das famílias.

• Como consequência dos comportamentos da indústria, do varejo e dos serviços, Indicador de atividade do Banco Central (IBC-BR) apresentou leve alta no acumulado do ano, refletindo lenta recuperação da atividade econômica.

 


3. Finanças Públicas

• Governo Consolidado (União, Estados, Municípios e empresas estatais) apresentou menor déficit fiscal primário (excesso de despesas não financeiras sobre receitas) durante o período janeiro-novembro, em relação ao ano passado, configurando o menor “rombo” dos últimos três anos.

• Resultado explicado pelo menor crescimento das despesas durante o ano, em relação à expansão das receitas do Governo Central (Tesouro, Banco Central e INSS), impulsionadas pela recuperação econômica e pelos maiores royalties do petróleo.

• Queda da arrecadação observada em novembro, em relação ao mesmo mês do ano passado, se deveu à maior base de comparação, explicada pelo recebimento nesta data de recursos de leilões de hidrelétricas da Cemig.

• Despesas com juros da dívida pública diminuíram durante o período janeiro-novembro, por conta do baixo patamar da SELIC, contribuindo, junto ao menor “rombo” primário, para reduzir o déficit nominal (excesso de despesas, incluindo as financeiras, sobre receitas).

• Meta anual de déficit primário do Governo Consolidado deverá ser cumprida com “folga”, devido à melhora dos resultados fiscais ocorrida durante o ano, situação que deve se repetir em dezembro.

• Governo financia excesso de despesas totais sobre receitas a partir do maior endividamento, o que coloca em risco a solvência das contas públicas.

 


4. Setor Externo

• Produtos básicos, principalmente soja, petróleo e minério de ferro, continuaram aumentando sua participação nas exportações totais, em novembro, enquanto os manufaturados diminuíram sua importância.

• Embarques para o exterior se concentraram, no período de janeiro a novembro, em quatro países: China – o principal, Estados Unidos, Argentina e Holanda.

• Retomada da atividade econômica, embora ainda lenta, tem estimulado todas as categorias das compras externas, que, no entanto, foram infladas pela importação “fictícia” de plataformas de petróleo, já produzidas no País.

• Balança comercial (diferença entre exportações e importações de mercadorias) continuou apresentando saldo positivo (superávit) elevado em novembro, e durante os onze primeiros meses do ano, mas, em ritmo menor do que os registrados no ano passado, na mesma base de comparação.

• Saldo comercial diminuiu o “rombo externo” total (déficit das transações correntes), que também considera os saldos das contas de serviços e rendas, no mesmo mês, sendo coberto com “folga” pela entrada de capitais estrangeiros de longo prazo.

• Incertezas no cenário econômico mundial, principalmente relacionadas à guerra comercial Estados Unidos-China, aumentaram a volatilidade e o nível da taxa de câmbio, durante os últimos meses, levando o Banco Central a realizar intervenções no mercado cambial.

 


5. Síntese da Conjuntura Econômica

• Recuperação econômica segue em marcha lenta.

• Inflação oficial (IPCA), em termos anualizados (12 meses) se encontra abaixo da meta anual (4,5%).

• “Rombo” fiscal continua diminuindo, devido ao menor crescimento das despesas em relação às receitas, porém, sem evitar o aumento do endividamento público, que alcança patamares preocupantes.

• Mesmo com cenário externo desfavorável, contas externas seguem “saudáveis”, registrando forte superávit comercial e expressiva entrada de capitais financeiros internacionais.

Por IEGV - Instituto de Economia Gastão Vidigal