Uma breve análise do caso Bradesco-Pecuária

*Por Cesario Ramalho, coordenador do Conselho do Agronegócio da ACSP 

O recente caso da ação publicitária do Bradesco nos meios digitais, que associou de forma rasa a pecuária com a emissão de gases de efeito estufa escancara o poder que a comunicação tem para alavancar ou prejudicar negócios.

O roteiro da propaganda da instituição financeira foi infeliz, já que tratou de forma absolutamente simplória a questão, sendo generalista e ignorando toda a jornada tecnológica desenvolvida pela pecuária nacional em favor de uma produção cada vez mais sustentável.

São investimentos feitos em genética, nutrição e pastagens, que vêm apresentando resultados positivos para redução do que o boi emite e simultaneamente conseguem promover mais e melhor sequestro de carbono por meio do pasto bem construído e manejado. Exemplos claros são as iniciativas de "Carne Carbono Neutro" e de integração-lavoura-pecuária-floresta, esta última prática que já cobre cerca de 18 milhões de hectares, ambas desenvolvidas pela Embrapa.

Como é sabido, porém, a atividade pecuária é heterogênea e há o desafio de se dar escala para as tecnologias e práticas de baixo carbono. Diante disso, é imprescindível que recursos direcionados à pesquisa agrícola e assistência técnica e extensão rural sejam preservados e se, possível, elevados, mas não mais contingenciados.

Por outro lado, também não se pode negar que a bovinocultura, pela característica intrínseca da atividade, emite um certo percentual de gases de efeito estufa, devido ao processo fisiológico intestinal dos animais. E isso não é ideologia, é Ciência. Cabe lembrar que na mais recente Conferência do Clima, o Brasil assinou compromisso global de mitigação da emissão de metano, um dos gases emitidos pelos bovinos, bem como liderou, sob comando do ministro Joaquim Leite (Meio Ambiente), as tratativas para criação de um mercado global de carbono.

O episódio Bradesco-pecuária mostra o equívoco que é tratar com mensagens superficiais questões de complexidade técnico-científica. Com as manifestações contrárias à propaganda, o banco acusou o golpe, entendeu rapidamente o erro, retratou-se publicamente e reforçou seu apoio histórico ao agro.

Neste sentido, o setor produtivo deve também ter em mente, que investir em comunicação transparente e não-radical é o caminho para se esclarecer mitos em relação às particularidades da pecuária e da agricultura em geral. É preciso comunicar sempre pensando com a perspectiva do consumidor, do cidadão, caso contrário não conseguiremos quebrar a bolha da informação para além das fronteiras do agro.

A própria ministra Tereza Cristina, em mensagem nas redes sociais em alusão ao caso, disse: "temos que fazer chegar essa mensagem de maneira direta, organizada e embasada em Ciência “além da porteira” ou dos nossos grupos de colegas e profissão". 


Por ACSP