‘Mulher Autora’ chega à sua terceira edição empoderando mulheres na ACSP

A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) sediou, na tarde de ontem (11), a terceira edição do painel “Mulher Autora”, na Plenária da Casa, com mediação das vice-presidentes da ACSP, Ana Cláudia Badra Cotait, que também é presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e Cultura (CMEC), e Ivani Perrone Bôscolo. O evento teve como convidadas as escritoras Jeanne de Castro, autora do livro recém-lançado “Tia Amélia – O Piano e a Vida Incrível da Compositora”, e Antônia Marchesin Gonçalves, cuja última obra lançada foi “A Camionete de Biscoito”.

“O Mulher Autora é um dos eventos mais importantes do CMEC, justamente por evidenciar essas mulheres que colaboram com a cultura do Brasil”, declarou Ana Cláudia logo no início do painel, dando as boas-vindas às autoras convidadas e à plateia – inteiramente feminina –, parabenizando-as e se dizendo honrada com a presença das escritoras.

Na sequência, Ivani fez a leitura do currículo da primeira convidada a debater sua obra, Jeanne de Castro, que também é jornalista e atua há mais de 20 anos como produtora cultural, sendo a idealizadora, corroteirista e produtora da websérie “Izaías e a Memória Viva do Choro” e do programa “Brasil Toca Choro”, da TV Cultura.

“Estou muito contente com o convite! É um dia muito especial para mim. Fiz uma palestra com foco mais feminista, e estou muito feliz em compartilhar um conteúdo que vai iluminar a cabeça de todas as mulheres aqui presentes”, comentou Jeanne, já iniciando sua apresentação, em slides, enaltecendo grandes vidas femininas relegadas ao esquecimento, como Rosa Montero, Olympe de Gouges, Alma Mahler, Dacia Maraini, entre outras.

A escritora, antes de abordar Amélia Brandão, a “Tia Amélia”, uma das pianistas mais populares do Brasil, personagem de seu livro, deu uma aula sobre feminismo, criticando o “apagamento” das mulheres através do tempo e da história do Brasil e do mundo. Logo de início, citou a jornalista Rosa Montero: “Não fui capaz de avaliar o tamanho da tergiversação e do ocultamento que sofremos. A porção invisível do iceberg de mulheres silenciadas começa a emergir agora, e tem dimensões colossais”.

De fato, a pernambucana Tia Amélia emerge na obra de Jeanne, ela que foi uma personalidade reconhecida e aplaudida, nas décadas de 1950 e 1960, por Pixinguinha e Vinicius de Moraes, com sucesso na carreira e apresentadora de programa de TV, mas foi apagada da história da música brasileira. “Em 1983, quando Tia Amélia morreu, foi apagada imediatamente da história da música no Brasil. [Com o livro] eu mostro a vida dela, sua música e contribuo para que ela realmente volte para a cultura brasileira, assim como Chiquinha Gonzaga”, esclareceu Jeanne.

A autora, além de falar da sua biografada, voltou no tempo para desnudar o machismo estrutural em âmbito mundial, que vem direta ou indiretamente silenciando meninas e mulheres, como no infanticídio exercido por romanos, chineses e egípcios, que assassinavam meninas recém-nascidas tidas como pesos não desejados, diferentemente dos cobiçados filhos varões. Fora a existência clandestina das mulheres, as quais não tinham direito à educação, liberdade de movimento nem ao voto, aos travestismos, quando se vestiam de homens e adotavam pseudônimos masculinos em obras literárias e muitos outros “truques” para sobreviverem numa sociedade machista.

Jeanne citou também a caça às bruxas, com a execução de milhares de meninas e mulheres em "condenações delirantes", mas que no fundo tinham a ver com a não aceitação de elas demonstrarem controle sobre suas próprias vidas e/ou pelos conhecimentos médicos que dominavam, via plantas medicinais.

A autora finalizou sua apresentação fazendo um apelo à mulherada: “Leiam! A realização que se tem quando acabamos de ler um livro é transformadora. Ler é um momento cultural e humano [que se tem]”.

Em seguida, foi a vez da escritora Antônia Marchesin discursar e debater sua obra. Antes de abordar seu terceiro livro, “A Camionete de Biscoito”, a autora contou como começou a escrever há oito anos, quando tinha 70 anos de idade, disse que lê frequentemente e de tudo desde adolescente, não fica sem um livro de cabeceira e tem boa memória. Aliás, é esse o segredo do seu processo criativo: relembrar “casos e causos” vivenciados para colocá-los no papel. “Para mim, ler é a base da minha vida e, consequentemente, veio o escrever, porque tenho boa memória. Tudo o que eu vivenciei nessa vida consigo pôr no papel”, explicou, aproveitando a oportunidade para contar sobre seu livro atual, um “conto romanceado”, escrito após um bate-papo com um italiano desconhecido, na cidade de Bellagio.

“Um senhor veio conversar com meu marido e eu, e começou a contar seu histórico profissional, sua vida particular. Nesse bate-papo, regado a vinho branco, ele revelou elementos muito provocantes, envolvendo casos de corrupção entre políticos verdadeiros. Chegando a São Paulo, a história não saía da minha cabeça, e resolvi escrevê-la. Inseri ficção no enredo, claro, mas o conteúdo é baseado nessa conversa com o italiano”, resumiu Antônia.

“Camionete de Biscoito” é o nome da empresa desse italiano, que, no livro, é o personagem Francesco. Vale destacar que a referida obra é bilíngue, metade em português e outra em italiano.

A autora finalizou sua participação também com um apelo às mulheres presentes: “A mulher tem que ler, mesmo que seja o jornal diário do marido. Leiam para se manterem atualizadas. Ler é o que faz crescer. Eu aconselho as mulheres a lerem mais”.

A primeira e a segunda edições do “Mulher Autora” ocorreram, respectivamente, em setembro e novembro de 2024, na Biblioteca do Comércio, no segundo subsolo da sede da ACSP, e, a partir deste ano, será realizada uma por semestre. O próximo painel está previsto para agosto.

Participaram também dessa primeira edição de 2025: Iracema Valadão, coordenadora-geral do CMEC na sede e nas distritais; Antônia Soares André de Sousa, autora de oito livros e três cordéis, e superintendente de Desenvolvimento Social da Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADESAMPA); Marília Silva Alves de Castro, membro da Diretoria Institucional da ACSP.

Veja as fotos: flic.kr/s/aHBqjC5bHs

Por ACSP - 12/03/2025